segunda-feira, 28 de janeiro de 2013


 O TAMANHO DO DEMÔNIO
Ana Trajano



São Miguel Arcanjo, de Veiga Valle. Museu de Arte Sacra
da Igreja da Boa Morte, Cidade de Goiás
“...E eles viram, então, com pasmo e terror, que Satanás saía da boca do homem na forma de um verme abominável e se encaminhava diretamente para o leite que levantava fumaça. Jesus, então, tomou de duas pedras pontudas nas mãos e esmagou-lhe a cabeça, e arrancou do corpo do homem doente todo o corpo do monstro, quase tão comprido quanto o homem. Quando o verme execrável saiu da garganta do homem doente, este recuperou imediatamente o alento e, nesse instante, todas as suas dores cessaram e fitaram os olhos assustados no corpo de Satanás.
            “Vê a besta execrável que carregaste e alimentaste no teu corpo durante longos anos. Expulsei-a de ti e matei-a para que ela nunca mais possa atormentar-te. Dá graças a Deus pelos seus anjos te haverem libertado e não peques mais, a fim de que Satanás não retorne a ti outra vez. Que o teu corpo seja, daqui por diante, um templo dedicado ao teu Deus...”
            Trecho que retirei do “Evangelho Essênio da Paz para falar de um assunto para alguns polêmico, para outros nem tanto. Longe de ser discurso moral, ou bíblico-religioso, a verdade é que desde sua queda o homem tem dentro de si Deus e o Diabo, cabendo-lhe, conforme seu livre-arbítrio, qual dos  dois deve seguir.
            Sempre imaginamos Satanás – e a iconografia religiosa contribui o suficiente para isso- como algo exterior a nós, isto é, aquele monstro de chifres e rabo grande a nos tentar. Mas a realidade é que ele está dentro de nós, pois tudo aquilo que nos tenta, que tira a nossa paz, que nos desvirtua do bem está dentro de nós, na forma de sentimentos, pensamentos, ações. Satanás pode muito bem ser chamado, ou ter por apelido, “senhor ódio”, “senhor rancor”, “senhora injustiça”, “senhor preconceito”, “senhora inveja”, e tantos e tantos outros.
            Satanás tem o tamanho das nossas ações, do mal que fazemos, e do bem que deixamos de fazer. Ele pode ter a medida do nosso corpo, ou ser bem menor que ele, pode ser muito bem malhado, ou raquítico, dependendo apenas de como o alimentamos. Às vezes Satanás tem o tamanho de toda uma coletividade, ou dos números de tristes holocaustos.
            Certa vez um professor meu de Filosofia disse em sala de aula, que só ao visitar Auschuwitz teve a certeza  de que o homem traz dentro de si Deus e o diabo. Essa afirmação chocou a turma, mas não a mim, que sempre soube disso.
            Quando eu era criança, sentia muito medo de uma imagem que mamãe tinha em casa, com São Miguel Arcanjo dominando o demônio, pisando sobre ele. Em uma mão São Miguel trazia uma espada e na outra uma balança. Aquilo sempre me intrigou. A balança, diziam-me, representa a justiça, e eu me perguntava: que justiça iria São Miguel medir no diabo se não existe nenhuma justiça no demônio?
             Hoje sei que o Satanás que São Miguel pisa é  aquele que temos em nós, e a balança da justiça mede o seu peso, ou tamanho, isto é, o que temos  de mau e de bom, o que temos de Deus e do diabo. Rezo todos os dias para que São Miguel domine o que há em mim e Jesus, assim como fez com aquele que habitava  o corpo do homem doente, expulse-o e esmague-lhe a cabeça.

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