segunda-feira, 19 de novembro de 2012



      CERCADOS PELA VIOLÊNCIA, REFÉNS DO MEDO

     Ana Trajano


Estamos cercados pela violência, somos reféns do medo. E eu me pergunto: por que a paz é tão difícil? A repressão a violência é visível  com as ações policiais, mas apesar disso, não conseguimos a paz. Esta, não a  conhecemos mais, aparece como visita em pequenos intervalos nas grandes cidades. Pois, logo após ondas de repressão, vêm novas ondas de violência. Por que, afinal, a paz é tão difícil? Será mesmo que é assim, ou somos nós que a estamos procurando de forma errada?
Digo “nós” como membros da sociedade na qual estamos inseridos e, portanto, nós enquanto sociedade, já que esta é resultado, ou  exteriorização, das nossas ações, ideias, pensamentos, conceitos, paradigmas, ou qualquer que seja o nome que queiramos lhe dar.
Sempre que procuramos efetuar ações de paz, na nossa vida, como indivíduos, ou na sociedade na qual vivemos, o fazemos de fora para dentro, quando deveria ser o contrário, de dentro para fora.  Tratamos o problema da violência como costumamos fazer com uma doença de pele,  a quem não damos nenhuma importância, e sobre a qual passamos um corticoide, ou qualquer outra pomada, sem nos preocuparmos com a causa, e ela – a doença – sempre volta.
 A paz, assim como a fé, não pode ser buscada fora de nós, em nosso exterior, pois ela simplesmente é  o resultado da prática - ou a soma - de todos os bons sentimentos, qualidades, virtudes, etc. Isto é, de tudo aquilo que está dentro de nós.
 Uma pessoa sem paz é aquela que está em débito consigo mesma, com o seu semelhante, com o mundo no qual vive. Um mundo sem paz é aquele cujos povos têm grandes dívidas uns para com os outros, e para com ele, o mundo. Um país sem paz é aquele que está em débito com seu povo. Débitos que têm nomes: injustiças, desrespeito à diversidade, etnocentrismo, toda forma de exploração em proveito próprio, etc.
 Mas quando um homem deve a outro, ou ao mundo, é a si também que está devendo, o débito maior é consigo mesmo. Assim também é com o país. O maior débito do Brasil é consigo mesmo, com o seu futuro. A dívida que tem com seu povo está sendo cobrada, no presente. Não há devedor que conheça a paz, porque ela não admite débito. E assim como não há dívida que não seja cobrada, nosso maior cobrador é nossa própria consciência.  
 Cristo cumprimentava seus apóstolos e seguidores desejando: “A paz esteja contigo”. A paz, podemos supor,  é condição básica para qualquer realização, ou seja, para que o discípulo possa realizar a obra do mestre, o filho a do pai, e  o governante para o governado. Tudo depende dela. Ninguém pode pregar o amor, a liberdade, a justiça, a igualdade se não estiver em paz, pois a paz para se estabelecer depende de tudo isto, pois ela é tudo isto.
Nosso país nunca resolveu a questão da violência, porque nunca resolveu seus débitos, sobretudo com as camadas mais pobres da população. Estes só se acumulam: a cada paciente que morre nas portas dos hospitais por falta de atendimento, a cada criança sem direito a uma escola pública de qualidade, a cada velho que deixa de ser assistido pela Previdência, a cada rua dos bairros pobres que deixa de ser saneada, etc. Enquanto os homens forem divididos por classes e as injustiças prevalecerem para privilegiar os mais abastados, os poderosos, o mundo não conhecerá a paz, pois a paz não admite divisões; só conhece a unidade!


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