segunda-feira, 6 de agosto de 2012


A morte, essa inimiga de posses



Ana Trajano
                

A partida recente do meu pai encorajou-me, mais uma vez, a escrever sobre a morte, a refletir sobre ela. São Francisco de Assis a chamava de “irmã”, colocando-a no mesmo nível dos demais seres da criação, a quem tratava todos dessa forma, sentindo com ela a unidade que nos entrelaça a todas as coisas.  Mas o que é a morte? A morte não é uma criatura, não é um ser. O que é ela, então?
            A morte, a meu ver, é a execução do poder e da justiça divinas. A morte desconstrói todas as formas de desigualdades, diferenças e injustiças que nós criamos, em nossa tentativa egoísta de nos diferenciarmos e nos sobrepormos aos demais. A morte é sábia, justa, digna. Ela não conhece preconceitos, nem desigualdades. A morte não discrimina, não separa por classes, nem por cor da pele. A morte conhece uma única classe, a dos homens; uma única pele, a que nos cobre o corpo, seja qual for sua cor, pois sabe que isso apenas enriquece a diversidade que há dentro da unidade. Nada está fora dela; tudo está dentro, entrelaçado.
            Poderosa e justa, ela faz curvar-se diante de si o mendigo e o monarca, do mesmo modo, sem distinção. O rei e o súdito, o pobre e o rico,  o negro e o branco têm o mesmo destino: o seio da terra, o ventre da mãe natureza. Novalis, um dos fundadores do Romantismo, dizia que “a natureza é inimiga de posses”. Eu peço licença a Novalis para afirmar: a morte também é inimiga de posses.
 Basta refletir um pouquinho para concluir: sendo a morte expressão do devir da natureza, ela é inimiga de posses. São as posses, a nossa luta (às vezes insensata) para tê-las que nos levam a recorrer  às desigualdades, às injustiças, a explorar o outro em benefício próprio. A morte leva as pessoas a quem mais amamos, dos quais julgamos, muitas vezes,  “ter a posse”. Mas, na verdade, não temos a posse de nada;  somos nós que nos apossamos das coisas da natureza, pois, afinal, tudo parte dela e termina nela.  Não é a morte que tememos, mas o medo da desconstrução das crenças e sistemas nos quais baseamos nossa vida.
            A morte é a única certeza que  temos, diz a sabedoria popular. Mas nós levamos a vida a morrer de medo dela, a trata-la como um monstro de capa e capuz preto, com uma foice na mão. Eu pergunto: será que esse não é o monstro que existe dentro de nós, a nossa sombra, com a qual matamos nosso semelhante, sempre que discriminamos, julgamos, odiamos? Nós só retratamos aquilo que somos. As qualidades ou defeitos que observamos nos outros, na verdade existem dentro de nós.
            Eu concluo com duas perguntas: como podemos retratar a morte  dessa forma se nunca a vimos? Não está na hora de perdermos o medo da morte matando as mortes que existem em nós?

(Imagem: Google, sem referência quanto a autoria)

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