sexta-feira, 8 de junho de 2012


       O coração na "Cidade dos Ossos"  
   Ana Trajano                                                                                                        

A dualidade denso-sutil está presente no tecido cósmico como uma de suas principais características. O denso, por suas propriedades, é muito fácil identificar: é palpável, visível, ou, como poderia dizer alguns céticos, é “real”. O que não sabemos, ou não lembramos, é que a qualidade densa  é apenas reflexo da sutil. O mundo visível é apenas reflexo do invisível. É assim com o macrocosmo e é assim com nós, como partes integrantes dele. Isto é, como microcosmo.
                O que está presente no macrocosmo está também no microcosmo. Você pode perguntar: como assim? Podemos ter um sol e uma lua dentro de nós? E se os temos de que forma são representados?  Tantas vezes me fiz essa pergunta, buscando os correspondentes sutis do Universo dentro de mim; e tão imensa como a vastidão do cosmo, sentia-me imensamente perdida na minha própria vastidão, sem encontrar resposta, como uma criança a olhar para o alto, procurando uma estrela da qual ouviu falar, sem nenhum conhecimento sobre sua localização. Até que um dia encontrei um livro do líder espiritual indiano Sathya Sai Baba que satisfazia as indagações que tanto me inquietavam.
                Comprei-o por achar interessante os assuntos ali discutidos,  já que trata-se de uma série de entrevistas sobre temas vários, mas nem de longe me passava pela cabeça que nele estavam as respostas que tanto buscava. Quando cheguei ao capítulo XII, de “Elucidando Dúvidas”, qual não foi a surpresa que Baba guardava para mim: um capítulo inteiro exatamente sobre a questão. Nele, Baba responde a um devoto que tinha as mesmas dúvidas.
                Finalmente iria saber em que parte de nós se encontra, por exemplo, o nosso sol   sutil. Para Baba, nosso coração é, em nós, a forma sutil do firmamento ou espaço denso (akasha) e assim como este,  tudo permeia.
                E  de que forma está representado o sol nesse universo?  Qual a forma sutil do sol em nós? Segundo Baba, “sendo o coração esse céu, naturalmente é o intelecto o sol que o ilumina.” Nosso intelecto, portanto, é a forma sutil do Sol. Quando li isto, lembrei  do Gayatri, a oração mais antiga da qual se tem conhecimento, e cuja tradução é a seguinte: “Oh Mãe Divina, contemplamos a tua luz que ilumina os três mundos: físico, astral e causal. Rogamos a Ti que ilumines o nosso intelecto e disperse toda ignorância, assim como a esplendorosa luz do Sol dispersa toda escuridão.”
                Nesta oração, ou invocação à Luz, está claro a relação do intelecto com o Sol. É ele - o nosso intelecto- que, uma vez atingido pela luz divina, acaba com toda ignorância, ou escuridão que existem no céu que é o nosso coração. “Nada mais possui a extensão, a área e a largura desse firmamento do coração. Imagine quantas cenas, quantos sentimentos, quantas conjecturas, estão imersos e encerrados neles”, lembra Baba.
                Esse mesmíssimo coração tem seu espaço disputado por dois exércitos numa perpétua guerra: o Bem e o Mal, numa estreita ligação, de acordo Baba, com a guerra descrita no Mahabharata, épico indiano, que descreve a luta entre os Pandavas e os Kuravas. Os cinco irmãos Pandavas são as boas qualidades: verdade, retidão, paz, amor e não- violência. Já as más qualidades são muitas e, assim como os Kuravas, constituem uma horda. “Cada pessoa, sob o seu próprio firmamento do coração, em seu próprio campo de consciência, está travando esse combate a cada instante,” lembra.
                Nesse ponto da entrevista, o devoto lembra que na tal guerra havia milhões de soldados, carros e súditos e pergunta quem são eles em sua forma sutil no homem.  Ao que Baba responde que “os milhões de pensamentos, sentimentos e impressões são os soldados e os súditos. O s 10 órgãos dos sentidos são os regimentos e os cinco sentidos, as carruagens.”
O Senhor Krishna, que durante toda a batalha se manteve numa posição de neutralidade, é a Testemunha, conhecida como Atma, e o condutor da carruagem da alma individual. Hastinapura, a capital do Reino na qual se dá a batalha, é o corpo, ou a “Cidade dos Ossos”, onde se realizam todas essas manifestações sutis no homem.
Essa guerra terá fim algum dia? É a pergunta feita pelo devoto, e por cada um de nós.  Algum dia o homem conhecerá a paz?  Segundo  Baba, essa batalha travada  por nós, em cada um de nós, só terá fim quando  no homem não existir mais nem as boas nem as más qualidades, isto é, “quando ele se tornar inteiramente destituído de qualidades.”
À pergunta se esse combate não pode ser evitado, Baba afirma que sim e diz como. “Os reis desenvolvem o espírito de batalha porque têm confiança em seus súditos. Os súditos encorajam os soberanos a desatrelar os cães de guerra. As ilusões são os súditos que impelem o indivíduo à batalha. Onde houver escassez de tais súditos, não haverá guerra. Portanto, meu rapaz,  despoje-se de súditos como as ilusões, os enganos, os sentimentos de “eu” e de “meu”, e então poderá desfrutar de uma paz inabalável.”


Imagem: Google, sem referência quanto a autoria

3 comentários:

Anônimo disse...

Lindo Aninha,e vamos acabar com os súditos,para nos bastar.E que o Sol brilhe sempre dentro de nós!!!! Amei....com muito amor da sua amiga,Conchi

Marília disse...

Parabéns Ana pelo interessante texto.Penso, que a nossa luta interior é para que sempre dentro de nós o sol esteja brilhando e que façamos o bem...para que possamos encontrar a nossa Paz. Para conseguí-la precisamos nos despojar dos nossos "eu" e do "meu" e pensarmos coletivamente.

Pedro Pail disse...

DISSE UM SÁBIO , CERTA VEZ , ''CONHECE - TE A TI MESMO '' !!! E É O QUE NOS BASTA , CONHECER A NOSSA ESSÊNCIA , O NOSSO ''EU'' , PARA QUE POSSAMOS VISLUMBRAR OS OBJETIVOS DA VIDA NESSE UNIVERSO DO QUAL FAZEMOS PARTE .... CAMINHEMOS EM PAZ !!! (bom trabalho Ana )