segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A morte, essa estranha conhecida


Ana Trajano



Lição de Anatomia

A incoerência é um dos nossos principais atributos, estando mais presente em nossa vida do que imaginamos. Quando o assunto é a morte é onde somos mais incoerentes. Sempre que ela leva um dos nossos, ou alguém conhecido, costumamos dizer: “que descanse em paz”, ou “que fique em paz”, ou “que Deus o tenha”. Frases de conforto, de alento, para nós e para o outro. Reconhecemos, com isso, que a morte não é ruim; é algo bom! É redentora! Que vemos nela uma possibilidade de paz. Pois do contrário não a veríamos como um descanso. Ninguém descansa, ou tem paz, em um lugar ruim. Sei! “Ela pode representar o oposto para os maus”, dirão alguns dogmáticos de crenças espiritualistas, sob o argumento de que, para estes, depois da morte, virá o inferno, o purgatório, ou algo parecido.

Mesmo que tudo isso seja verdade, ainda assim ela representa a liberdade e a redenção. Pois céu e inferno, antes de existirem como realidades materiais, existem de forma abstrata, ou como estados de consciência, dentro de nós. Nós vamos para o lugar céu, ou para o lugar inferno, porque ao longo de nossa vida decidimos habitar um desses dois mundos. E qualquer que seja o que escolhemos, enfrentamos grandes batalhas contra nós mesmos ao longo da vida. A morte física representa, pois, o libertar-se, o redimir-se de nós próprios, depois de tantas guerras íntimas, para onde quer que se vá. A nós é dado o livre arbítrio e, feita a escolha, não há porque se queixar.

Passamos a vida temendo a morte, mas ela está inimaginavelmente presente em nosso dia-a-dia, e de formas nada sutis. Nós, em nossos temores, não a percebemos, ou procuramos ignorá-la. A morte é o alimento da vida, nossa ração diária! Está presente na carne do animal que matamos para comer, no vegetal que cortamos, na raiz que arrancamos... Alguma coisa, enfim, tem que morrer para que possamos viver.

Mas se ela é tão presente porque incoerentemente a tememos tanto? A religião, temos que admitir, tem sua grande parcela de culpa, por mostrá-la como uma desgraça e apresentar-se como a salvação, isto é, como a graça para livrar-se dela, da morte eterna. Com isso, nos enchem de medo e a transforma na mais temível realidade humana. Pois morrer representa a possibilidade de ir para o inferno, de ver perdida sua alma.

Melhor faria se nos fizesse lembrar que do amanhecer ao findar dos dias ela está junto de nós, pois dependemos dela para viver, que vida e morte são companheiras inseparáveis nos duelos da criação, nas polaridades cósmicas. Dizem que a tememos porque não a conhecemos. Puro engano! A conhecemos tanto quanto a vida. O problema é que não conhecemos a nós mesmos, nem o mundo no qual vivemos, pois do contrário não a temeríamos.

A morte é o processo de reciclagem mais perfeito que existe, do Universo e de nós mesmos. Nós, que nos alimentamos dela, um dia seremos alimento para todas as espécies que nos serviram de comida. Desintegrados nossos corpos, no mínimo, alimentarão os vermes que adubam a terra, onde nasce o capim, que alimentará o boi, que alimentará o homem!... É a dinâmica da vida! O espetáculo da criação!



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