quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012


Cultura da paz x cultura da guerra

Ana Trajano


No meu livro de poesia infanto-juvenil “A Sementinha do-Bem-me-Quer” tem um poeminha que diz o seguinte:


Jovens oferecem flores aos policiais
 

“Sabe o que é

Cultura de paz?

É a sementinha

do bem-me-quer

plantamos no coração

e nasce um pé

pezinho de paz

cheio de bem-me-quer!”

Essa foi a forma mais simples que encontrei de mostrar às crianças a importância da cultura da paz, comparando-a à semente de uma flor que uma vez plantada floresce no coração em forma de paz, enchendo-o de bem querer, isto é, de amor por todos.

Obviamente, o termo cultura da paz não é tão simples assim, embora traga, intrínseco em si, semelhança com os meus versos. Cultura da paz uma vez semeada, e vivida, bem que parece com um campo florido de bem-me-quer: transforma a realidade dos corações nus num campo coberto de flores com o poder, assim como na canção de Vandré, de vencer canhões. Magnífica a canção de Vandré, pois a cultura da paz pode ser comparada a flores, interpondo-se sobre as armas, isto é, sobre a cultura da guerra.

Lembrei muito de Vandré esses dias com o episódio da repressão aos estudantes, no centro do Recife, em manifestações contra o aumento das passagens de ônibus. Alguns manifestantes recorreram às flores, oferecendo-as aos policiais do Batalhão de Choque, que avançavam sobre eles. Cenas que a mídia não mostrou, preferindo substitui-las por críticas ferrenhas aos estudantes. Mais uma vez venceu, infelizmente, a cultura da guerra, que tem em nossa mídia, ou grande parte dela, o seu mais forte aliado.

A nossa cultura midiática está enraizada na cultura da violência. Não se vê, por parte dos meios de comunicação, nenhum esforço no sentido de implementar a cultura da paz. Ódio, disputa, ganância e crime estão entre os ingredientes mais usados na receita da boa audiência. Não nos é oferecida, sequer, a opção light. Por todos os canais e por todas as páginas a violência tem por limite o exagero: do corpo estendido, do sangue derramado, do desrespeito ao princípio da imparcialidade, nas palavras ditas e análises feitas, por profissionais que muitas vezes, ou se sentem ofendidos, ou tomam para si as dores de suas organizações e do Estado, repressor. Tudo isso muito bem mostrado no episódio dos estudantes, no Recife.


Protesto contra atitude do jornal

Pergunto-me como os profissionais de imprensa podem esquecer que o desenvolvimento da paz sustentável depende da mídia. São obrigados a isso? Triste realidade, mas de certo modo são, já que as empresas nas quais trabalham, e dependem para sobreviver, respondem unicamente às leis de mercado, subtraindo as leis da informação.

Infelizmente, vivemos em um mundo no qual as leis, tratados, manifestos, etc. são feitos para, em muitos casos, não serem cumpridos, o que apenas demonstra o poder da cultura da guerra. Em 1997 a UNESCO, em uma das suas atividades relativas à cultura da paz, reuniu em Puebla, no México, profissionais de imprensa (diretores e editores-chefe) de toda a América Latina. Desse evento resultou a declaração assinada por eles, reafirmando “sua adesão a uma sociedade na qual seus membros coexistem em paz e denunciem a cultura da guerra, em nome da Cultura da Paz. Reconheciam que o principal meio para a livre circulação de ideias é a imprensa independente.”

Reconheciam, também, que “a realização da harmonia interna no centro das sociedades, bem como o entendimento pacífico entre as nações, requerem transparência de informação e opinião”. Palavras ao vento!

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