terça-feira, 17 de janeiro de 2012


              O poder de fogo do automóvel


                             Ana Trajano
Automóvel: guiado com imprudência é uma arma.



Está pertinho de fazer um ano que um amigo nosso foi atropelado e morto por um automóvel que, permitam-me o trocadilho, vinha em alta ferocidade. A velocidade do carro correspondia exatamente à ferocidade do seu condutor, assim como uma bala, depois de apertado o gatilho, sai tão veloz quanto é feroz quem a dispara. Este nosso amigo vinha de bicicleta, à noite, tentando, como um bom cidadão, ou para muitos, um ingênuo cidadão, dar sua contribuição ao miserável mundo do qual se foi, preferindo a bicicleta ao seu carro.

Menos um carro na rua para ele, era mais um estacionamento garantido para quem realmente precisa; um carro a menos na rua era menos poluição, menos morte causada pelo dióxido de carbono, menos agressão ao Planeta. Pensava assim esse nosso amigo e, naquela noite, pedalava feliz. Era Carnaval, dia do Galo da Madrugada. A cidade estava em festa, Pernambuco estava em festa e, como o de todo pernambucano, seu coração era só acordes do Frevo e do Maracatu.

A morte chegou-lhe irresponsavelmente pelas mãos de um louco de quem não se tem nenhuma notícia, pois jamais foi identificado e permanece impune. E, iguais a dele, muitas têm sido as mortes provocadas por homicídios dolosos no trânsito. Se muita gente pensasse igual ao nosso amigo, as alarmantes estatísticas que mancham de sangue, dor e vergonha as nossas ruas e rodovias, e enlutam nossas famílias, seriam reduzidas drasticamente.

Mas um número cada vez maior de pessoas não apenas não pensa como nosso amigo, como faz de seus automóveis uma arma mortífera, movida com o combustível da sua irresponsabilidade. Nós, seres humanos, nos orgulhamos de nossas fantásticas invenções, frutos de nossa brilhante inteligência. Mas basta olharmos para um carro, por exemplo, e percebermos que não somos tão inteligentes assim; do contrário as máquinas que inventamos seriam perfeitas, mas, na melhor das hipóteses, são apenas cópias perfeitas de nós mesmos, dos nossos erros, das nossas imperfeições, da nossa agressividade. São apenas extensões dos nossos desejos, mesmo os mais podres. Elas apenas nos facilitam as coisas. Desse modo, um revólver é apenas a extensão do desejo de matar, de forma mais fácil e eficaz. Com o carro também pode ser assim, basta que seja utilizado como tal.

E as estatísticas mostram que ele vem, cada vez mais, sendo usado dessa forma. Quando patenteou seu primeiro automóvel, em 1886, o alemão Karl Benz certamente sabia que estava presenteando a humanidade com uma de suas maiores invenções, mas talvez nem de longe pudesse imaginar que estava dando-lhe também uma arma com alto poder de destruição.

Algo tão poderoso e que tantos prejuízos tem causado em todo o Planeta, que a Organização das Nações Unidas (ONU), diante da grandiosidade do problema, decidiu instituir o período 2011-2020 como Década para Segurança Viária no Mundo, recomendando que cada país planeje suas ações e as execute de forma a reduzir o número de vítimas.

E o trânsito brasileiro está entre os mais violentos. As estatísticas mostram que são 40 mil mortes por ano e 180 mil internações. Por aqui, os acidentes de trânsito dão aos cofres públicos um prejuízo de 34 bilhões de reais. É muito dinheiro que poderia estar sendo investido em saúde, educação, saneamento, etc. Não é toda guerra que pede um investimento tão alto para ser combatida. O mais dramático é saber que esse investimento não é para combatê-la, mas para minimizar suas consequências.

Mas a violência provocada pelo automóvel não se restringe apenas aos acidentes, com suas graves consequências. A poluição também é outro problema tão sério quanto o primeiro. Segundo dados divulgados por edição especial da revista Superinteressante, cerca de 22 por cento das emissões mundiais de dióxido de carbono são provocados pelo setor de transportes.

O Reino Unido registra aproximadamente 50 mil mortes por ano provocadas pela poluição do ar, em boa parte produzida pela gasolina e óleo diesel dos automóveis. Sem citar fontes, a mesma revista informa que em Belo Horizonte a poluição gerada pelos carros mata cerca de 400 pessoas por ano. Em situação de alto risco está também a cidade de São Paulo, onde o ar é quase três vezes mais pesado que o limite considerado seguro pela Organização Mundial de Saúde.

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