segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Na incoerência estão os nossos cacos
                                               Ana Trajano

Comecei o ano fazendo uma reflexão: a incoerência é um raio x que nos expõe tal como somos diante da vida. Nada lhe escapa: nenhuma palavra, nenhuma ação, nenhum deslize, pois lá está ela, com o mesmo poder de uma micro explosão radioativa,  a imprimir no filme o que está além da nossa pele, dos nossos ossos!
O problema é: somos incoerentes por natureza, porque por natureza somos fragmentados. Grandes líderes pacifistas indianos, entre eles Mahatma Ghandi e Sathya Sai Baba, não cansaram de repetir uma velha sabedoria dos textos védicos: caráter é a coerência entre pensamento, palavra e ação. Se formos analisar as duas palavras, veremos o quanto este conceito está correto. Caráter é integridade; coerência, unidade! Um ser, ou um sistema íntegro, é um ser ou um sistema inteiro, não fragmentado, em unidade.  Uma rápida análise do que é o mundo, com nossos sistemas políticos, sociais e econômicos, mostra o quanto isto é verdade.
É sem caráter o nosso mundo, porque não pratica a coerência. O exemplo mais marcante está nos nossos políticos: na época de campanha falam uma coisa, expõem seus brilhantes pensamentos, suas promessas salvadoras. Mas o que pregam não é o que pensam e, conforme pensam, agem completamente diferente do que  pregam. Mas lá está ela, a incoerência, a lhes denunciar.
Assim é também com nossos sistemas social e econômico. Prega-se a justiça, a igualdade, a correta distribuição de renda, mas as nossas ações não correspondem às nossas palavras. Nossas organizações internacionais perdem tempo, papel e dinheiro elaborando tratados e programas de paz, os quais inúmeras nações, após assiná-los, se comprometem em cumpri-los, mas na primeira oportunidade lá estão elas fazendo suas guerras.
 Diz Jacob Boehme, um dos papas da Metafísica, em “A Aurora Nascente”, que a queda de Lucifer deu-se  por sua ganância: quis ele brilhar mais do que o filho de Deus. Lúcifer, um dos arcanjos a quem Deus confiou um de seus reinos, foi incoerente com a sua natureza angélica. E a verdade é: continuamos agindo como Lúcifer todos os dias, com nossas incoerências, fragmentados, sem unidade nenhuma.
Instituímos datas para comemorar a paz. Mas alguém lembra o que se comemora no dia 1 de janeiro? O primeiro dia do ano é dedicado à paz. Mas a nossa incoerência nos faz esquecer disso, e passar o primeiro dia do ano tentando nos curar da ressaca do réveillon, isto é, da violência praticada contra nós mesmos, com o álcool que ingerimos como se fosse a água do mais sagrado dos rios, a nos proporcionar paz!

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