segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

               As violências do “religare”  
                                
                                                                Ana Trajano
                                                                 
         A violência é algo intrínseco à realidade humana. Talvez seja ela a característica mais primitiva que o homem ainda guarda dos seus tempos de savana, quando se comparava a qualquer outro animal na luta pela sobrevivência. Ainda tão presente, esse primitivismo que a humanidade se recusa a extirpar da memória, e que põe em dúvida a nossa tão louvada racionalidade, permeia também o terreno do sagrado, isto é, do religioso, sendo aí onde ela parece mais chocante, sobretudo no que se refere ao preconceito contra alguns cultos e, é bom destacar, suas origens.
 Dentro da nossa visão limitada, estreita e preconceituosa, o que acontece nas práticas rituais de algumas religiões, choca mais do que ocorre em outras, ou daquilo que praticamos em nosso próprio cotidiano. Assim, o sacrifício de animais, comum em alguns cultos de origem africana, é para muitos absurdo, inaceitável, inadmissível. Esses mesmos adjetivos, porém, parecem não se aplicar ao animal que passa por um sofrimento atroz ao ser sacrificado no matadouro para a carne chegar à nossa mesa.
Não estou aqui defendendo essas práticas. Em absoluto! E muito menos  levantando bandeira pelo vegetarianismo. Trata-se apenas de colocar a incoerência que existe entre condenar o sacrifício num ritual religioso, e aceitar o outro, tão cruel quanto o primeiro, para satisfazer os nossos gostos alimentares. Trata-se também de admitir que a violência do sacrifício é aqui utilizada como argumento para explicar a discriminação da qual estes cultos continuam sendo vítimas.
          A violência, longe de ser coisa de uma  ou outra isoladamente, é extensiva a praticamente todas as religiões, quer através de práticas rituais, que vão desde o sacrifício a auto-flagelação, quer através do fanatismo e preconceito.
É necessário lembrar que a violência não se restringe a ação, e reação, física da agressão, mas esconde-se em caminhos mais sutis que estão muito além disso: ela está no preconceito, na discriminação, na exploração pela fé. Está presente, enfim, em atitudes que tolhem o outro naquilo que lhe é mais sagrado do que o culto a uma divindade: sua liberdade de pensamento, de expressão, de crença.
A violência implícita nas palavras, na rejeição, na incapacidade de compreender o outro, dói tanto quanto o açoite dos tempos da senzala. Tivemos oportunidade de ver isso em sala de aula, na pós-graduação em História das Artes e das Religiões,  nas discussões sobre os cultos africanos. Foi duro ver colegas praticarem essa violência sutil, e colegas sendo vítimas dela. Foi duro ver o sofrimento de alguns que escondiam-se em seu silêncio, trancavam-se em sua dor temendo revelar, e defender, sua crença, enquanto ouviam barbaridades sobre ela.
A união que nessas ocasiões faltou em sala de aula, para mim evidenciava apenas a nossa “desunião” com Deus. Unidade parecia-me algo da cabeça de uns poucos filósofos, ou de algum astrofísico que, após mergulhar profundamente no âmago da matéria volta à tona trazendo consigo apenas uma certeza: somos todos, homens e coisas, apenas partes integrantes de uma realidade única, ou seguindo a via do sagrado, já que o assunto é este, apenas células de um mesmo organismo: Deus.

                                      RELIGARE

         A violência religiosa é conseqüência, na minha opinião, do que está implícito no sentido do “religare”, ou ligar novamente, isto é, do homem que se julga separado de Deus, e faz do religar-se a Ele quase uma batalha. O “religar” por si já admite algo que foi ligado algum dia. Obviamente nós só religamos aquilo que já foi ligado. Se foi ligado é porque havia uma união. Se havia uma união como e quando ela foi quebrada? A partir do instante em que o homem deixou de sentir ele e Deus como uma única realidade.
 Esta é, com efeito, uma das palavras mais carregadas de fortes significados que existem, e que eclodem no emocional, na psique. Do “religare”, ou da falsa ideia de separação, surgem as religiões, e das religiões as batalhas para o religar-se. Religar-se ao Deus de cada religião. Guerras aconteceram e acontecem todos os dias, ao longo da história, em nome do religar-se, pois o religar-se está a serviço, sobretudo, de ideologias.
        

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