sábado, 3 de dezembro de 2011

Antropofagia na linguagem machista

Ana Trajano




Os novos dados divulgados sobre a violência em Pernambuco nos envergonham e entristecem, não apenas porque tratam da violência contra a mulher, mas porque expõem, de forma absurda, as entranhas da sociedade machista em que vivemos. Até outubro, os dados para 2011 já haviam computado 215 assassinatos de mulheres no Estado, números que superam os de 2010.

Para aliviar o horror provocado por esses dados, e tentar reduzi-los, a companhia de águas e esgotos (Compesa) decidiu realizar campanha, juntamente com o Ministério Público de Pernambuco, divulgando nas contas de água, a partir de dezembro, informações sobre a Lei Maria da Penha e o número do telefone para denúncia.

Uma iniciativa louvável da empresa que, espera-se, surta algum efeito e não seja mais um no universo de paliativos já existentes. Paliativos, vale salientar, servem apenas como suporte para medidas mais consistentes. Para apagar esse incêndio que se alastra como pólvora é necessário muito mais que informação na conta de água.

São necessárias mudanças dos velhos para novos padrões culturais e de comportamento. O que há de específico na violência contra a mulher é que ela também tem raízes culturais. Está intrínseca até na linguagem do dia-a-dia. A antropofagia na linguagem machista, por exemplo, é fato corriqueiro entre nós e, apesar de abominável, tornou-se verbo de uso comum para definir as relações amorosas entre homem e mulher.

Os homens já não fazem amor, ou sexo, mas “comem” as mulheres. Não ouvimos mais: “fulano fez amor com fulana”, ou mesmo “fulano teve relações com fulana”. Essas são expressões em desuso, tornaram-se ridículas. O que mais ouvimos é: “fulano comeu fulana”. E esse “comeu” quase sempre soa como vitória. Não como sucesso, momento último, mágico, num processo de conquista, de sedução, mas como vitória.

Em resumo, as relações entre homens e mulheres assemelham-se as que só vemos na selva: são as mesmas entre a presa e o predador. Aliás, superam as da selva, pois presa e predador são da mesma espécie. Neste cenário antropofágico, os novos símbolos sexuais, produzidos pela mídia, têm nome de frutas, de algo para presentear o paladar; mulher moranguinho, mulher melancia, mulher pera, etc. Isto é, mulheres são comestíveis, e frágeis e gostosas e suculentas como a enorme variedade de frutas do nosso pomar tropical.

Uma boa informação nas contas de água, para começarmos a mudar esse quadro de horror, seria: “Mulheres, não permitam que seus homens lhes “comam”! Não se deixem devorar! Exijam fazer amor, ou sexo; não serem “comidas”! Não foi para isso que conquistamos o direito ao voto, que conseguimos mais espaço no mercado de trabalho, que lutamos por cidadania”.



Antropofagia ou canibalismo?




Sobre o termo “antropofagia”, utilizado no texto, o professor Edson Hely Silva, da Universidade Federal de Pernambuco, extremamente cuidadoso com a questão do preconceito contra os índios, (ele é um dos maiores pesquisadores brasileiros sobre povos índigenas, e prepara-se para seu pós-doutorado no assunto) enviou-me e-mail com algumas observações bastante pertinentes. Vou transcrever na íntegra o texto de Edson.

“Ana,

Tudo bem?

Acessei o blog (vou divulgar) e li o texto que gostei muito. Tenho algumas observações a fazer. Tratar da relação antropofagia/selva, no contexto discriminatório contra os povos índigenas, é algo complicado. Pois naturalmente as pessoas irão pensar: antropofagia=índios. O que não é de forma alguma o que diz o seu texto, nem tampouco seja essa a intenção dele!

A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha (aposentada da Usp e da Uni. Chicago/EUA) publicou, anos atrás, um texto bastante instigante, discutindo os discursos de antropofagia e canibalismo, atribuídos pelos colonizadores europeus (portugueses, franceses, holandeses, alemães, etc., etc., etc.) fossem administradores coloniais, missionários, naturalistas, etc. sobre os índios no Brasil.

Em resumo, após examinar textos coloniais, a pesquisadora fez uma distinção interessante: canibal era como os colonizadores portugueses chamavam os grupos considerados hostis, que resistiam a dominação. Eles eram cães/canibais. Se alimentavam de carne humana, à semelhança de cães!

Antropófagos eram os discursos de viajantes de outras nacionalidades (que só passavam pelo Brasil, não vieram colonizar). A antropofagia era o consumo de carne humana, mas de forma ritual: para ter a força do morto, como vingança ritual. Essa visão era profundamente influenciada pelo conhecido mito do “bom selvagem”, de Rosseau.

O teólogo presbiteriano, Rubem Alves, anos atrás, fez uma reflexão (não a tenho, e não sei onde encontrá-la. Talvez na Internet) sobre o filme A Festa de Babete, onde ele relacionou, de forma poética, o ato de comer com a relação sexual.

Bom, espero que essas reflexões ajudem você a pensar o seu texto. Abraços”

Edson silva




Minha opinião



De início, obrigada a Edson pela contribuição! Eu penso o seguinte: mudam as palavras, mas a violência é a mesma, tanto em uma como na outra. Só depende de qual palavra se escolhe para usar: antropofagia ou canibalismo. Os dois substantivos expressam um único verbo e uma única ação: comer carne humana! Escolhi antropofagia porque, para mim, é a palavra que se adequa mais ao assunto, já que o ato sexual pode ser visto como um ritual, cujo verbo “comer” tem ferido sua beleza e sacralidade, assim como o sacrifício de seres humanos, e mesmo dos animais, fere a sacralidade de qualquer ritual. Há semelhanças também no que se refere á competitividade, pois, na minha opinião, é como se o homem, alimentado por seu machismo, “comesse” a mulher para disso retirar sua força, se sobrepor a ela. Quanto a reflexão do teólogo presbiteriano é preferível não comentar.



2 comentários:

Joana Belarmino disse...

Excelente. Vou recomendar no twitter e no facebook. Essa gografia violenta não tem fronteiras.

Rosa da Rosa disse...

Uma forma de conscientização, mas é preciso punição e mudanças culturais, mulheres precisam ser solidárias com as mulheres. Parabéns ao estado de Pernambuco. Aí vai um vídeo solidário para todas as mulheres que ainda estão "por trás das flores". Abraço, Rosa. http://www.youtube.com/watch?v=7Er75X8Fz_w