quinta-feira, 1 de setembro de 2011

LIVRO E CAVIAR

Ana Trajano

 

Não entendi, até agora, porque tiraram da rua a feira de livros, do Festival Recifense de Literatura, e a confinaram no luxuoso hall de um shopping. Elitizaram-na! A praça é do povo; o paço é da elite. Faltou povo, gente simples tocando os livros, passeando em suas páginas; faltou algazarra de crianças olhando desenhos, lendo estórias, escolhendo a que mais lhe agradasse. Faltou espaço para o conhecimento. Este, que já é apertado no bolso, não pode ser também em espaço.

Sou apaixonada por feiras. E quando a feira é de livros perco as rédeas dos meus sentidos: quero ver todos, ler todos, ouvir tudo o que se fala sobre todos e, principalmente, comprar todos. Mas a grana anda curta e o desejo de comprar nem sempre é satisfeito. Pena que não estou grávida: adoraria ter filhos com cara de livros. Um filho com cara do Fausto, de Goeth; outro com cara de Ulisses, de Joyce. Obesos em saber, altamente calóricos nas suas palavras, na sua poesia. Sempre que olhasse seus rostos, ou suas páginas, agradeceria ao meu desejo insatisfeito.

Como é bom ver o conhecimento sendo exposto em stands e barraquinhas como a mais simples das mercadorias. Pois é exatamente isso o que ele é, uma mercadoria: para ser adquirido é comprado, para ser repassado é vendido.

O problema é que essa mercadoria, que deveria ser gênero de primeira necessidade, é elitizada, tratada como caviar, e poucos podem sentir seu sabor, já que não conseguem chegar ao fundo mar onde está o esturjão, e arrancar-lhe as ovas, e muito menos comprá-lo. Conhecimento, infelizmente, ainda é tratado como produto específico para uma minoria endinheirada. Custa os olhos da cara, e assim como o faz com cd’s e dvd’s o rentável comércio da pirataria ainda não conseguiu falsificá-lo.

Conhecimento é para ser difundido, repassado, solto ao vento como sementes de girassol, ou pólen das flores, esperando o pássaro faminto que o espalhe até onde suas asas alcançarem.



Nenhum comentário: