quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Do mais profundo do meu coração

Um mundo de paz



Quando sou chamada para ir aos colégios falar de paz, ou literatura, as crianças
sempre indagam: “Ana, qual o teu maior sonho”? E eu não vacilo ao responder: “viver em um mundo de paz”. Sim, esse é o meu sonho, viver em um mundo onde possamos ligar o televisor sem medo da imagem do corpo estendido, comprar o jornal sem esperar a notícia chocante, sair às ruas sem temer o assalto, ou a bala perdida.
Enfim, viver em um mundo onde a violência não seja objeto de audiência garantida nos meios de comunicação, lucro certo para as empresas de segurança, nem a responsável pela formação de um poder paralelo, que nos deixa impotentes. Um mundo onde a sociedade civil não seja refém de tantos medos, tantas desgraças. Um mundo onde eu possa ver uma floresta, um lago, sem imaginar que daqui a alguns meses eles possam não existir mais, porque a ganância subtraiu-lhes a existência. Um mundo onde uma criança de cinco anos, ou um velho de oitenta, não tenha que catar no lixo algo que lhe sacie a fome.
Mas esse mundo parece cada dia mais irreal, fruto apenas de um sonho. E quando falo de mundo refiro-me não apenas ao Planeta Terra, essa nave-mãe que sente em seu ventre os horrores da violência humana, mas de algo mais grandioso, cósmico, já que até as estrelas estão ameaçadas de perder sua paz. Estações de turismo no espaço tornar-se-ão realidades em curto espaço de tempo. A notícia ganhou as manchetes e já existem filas de turistas esperando sua vez para poluir as estrelas com seus milhões de dólares.
É isso mesmo. Enquanto a fome, e doenças como a Aids, dizimam milhões de vidas na África, por exemplo, milionários excêntricos aguardam ansiosos para queimar seu dinheiro num rabo de foguete que os leve ao espaço. Sinto pelas estrelas.
Nando Cordel diz em uma de suas mais belas canções que “a paz do mundo começa em mim”. Está certo. A paz começa com nossas pequenas ações, a partir da consciência de que a vida é insustentável sem ela. Madre Teresa de Calcutá dizia que “a paz começa com um sorriso”. Também está certa. A paz começa quando estamos bem com nós mesmos, e dessa forma podemos sorrir para alguém. Eu só posso transmitir paz se estou em paz.





OS ÁRDUOS CAMINHOS DA POESIA INFANTIL



Escrever poesia para crianças, ao contrário do que muitos podem pensar, não é fácil. Mergulhar no universo lúdico dos baixinhos exige no mínimo habilidade com as palavras para cativá-los, atraí-los para a leitura, proporcionar-lhes prazer. O poeta infantil tem de se travestir de palhaço das palavras e buscar o melhor ornamento que chame a atenção. É muito diferente de escrever uma estória onde o enredo, e não a palavra pincelada, é o que constitui esse ornamento.
Quando comecei a fazer poesia infanto-juvenil nem eu imaginava que desse certo, pois sabia o quanto seria difícil desde a conquista do público à penetração no mercado, ou seja, encontrar uma editora que decidisse publicar meu trabalho, apesar da carência existente de poesia infantil.
Basta visitarmos as estantes destinadas à literatura infanto-juvenil, nos sebos e livrarias, para comprovarmos essa realidade. Muito pouco de poesia encontramos. Não por carência de poetas, e bons poetas (estes com certeza existem e em grande quantidade), mas porque o mercado literário brasileiro ainda oferece uma certa resistência a esse gênero.
A desculpa é que não vende, levando à conclusão que criança não gosta de poesia, o que não é verdade. Nas visitas que faço aos colégios percebo exatamente o contrário. Criança gosta de poesia, sim. Desde que, assim como uma boa estória, a encante. Assim como continua encantando a cada um de nós, algum versinho que aprendemos na infância.
Concordo que a criança precisa ser mais estimulada para a leitura de poesia, porque essa, com relação à leitura de outros gêneros, ainda é muito pequena. E esse estímulo deve partir não apenas da escola, mas dos próprios pais. Em uma feira de livros da qual participei presenciei um fato que chamou minha atenção: a criança pegou um livro de poesia, gostou, pediu à mãe que o comprasse, mas ela o fez desistir de sua escolha, alegando que era melhor um outro, uma fábula.
Como disse, criança gosta de poesia, sim, desde que a encante. E para encantá-la não tem necessariamente que possuir rima, sonoridade, ou simplicidade exagerada na construção dos versos. Criança adora algo que a instigue a descobertas, aguce seu raciocínio, faça-lhe rir.
No meu livro “A Sementinha do Bem-me-Quer” (Edições Edificantes) os dois poemas preferidos pela meninada são “Ciência” e “Gulodice”, de construção simples, engraçados, críticos, mas que exigem raciocínio. Transcrevo abaixo esses dois poemas. No primeiro, a criança confunde Platão com Plutão, e no segundo farinha-láctea com via-láctea.




GULODICE

-Mamãe, quero mingau
De via-láctea!

-Não, filhinha!
Você iria regurgitar planetas!




CIÊNCIA

-Mamãe, você sabia
que Platão não é mais planeta?

-Não, filhinha. E Plutão
deixou de ser filósofo?

Nenhum comentário: