segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

VEM, DEUS DA LUZ!

Ana Trajano

Tu, Deus da Luz - luz que a todos doa-se sem medida - distante dos soberbos nasceste. A palha escolheste como lençol, a manjedoura como berço, e a estrebaria como abrigo. Assim, Senhor da Luz, assim escolheste para nascer, e os reis da Terra tua majestade jamais entenderão.
Ela não é para os soberbos, para os poderosos e os arrogantes. Ela assenta-se na humildade, a humildade que é essência da luz, a luz que reina sem discriminar, sem olhar para quem está reinando. O sol afirma isso todas as manhãs ao levantar-se como hóstia, hóstia de luz que alimenta a vida, não importa quem lhe seja o dono: se rico ou pobre, feio, ou bonito, preto ou branco.
Passai os olhos ao teu redor, tu me dizes, e enxerga o orgulho que cobre o mundo. Pudessem os poderosos da terra, aqueles que governam e dominam, ter algum poder sobre o sol e este seria fatiado, e de suas fatias meus humildes seriam excluídos.
Por isso, fizeste-te pequeno para alcançar os pequenos. Mostraste que os impérios caem, os reis morrem, as injustiças matam, o orgulho condena, e só os que se sentam nos tronos sagrados da humildade soberanos eternos se tornam. Curve-se o ego do mundo a ela e as portas do abismo serão fechadas aos nossos corações.
Mas quantos querem te ouvir? De ti escondem os ouvidos as multidões errantes. Quantos de fato governam para os excluídos? Quantos veem-se na face de um mendigo? Quantos veem Deus no velho esquecido e na criança de rua? Fácil é procurar-te nas igrejas, ou simplesmente esquecer-te. Gostoso é comemorar o Natal em meio a uma mesa farta, a uma árvore cheia de presentes.

Todos somos vendilhões dos templos, dos nossos templos sagrados: os nossos corações. Sentimentos têm códigos de barra, tem perfume e sabor. Ofuscamos teu Natal, Deus da Luz, ofuscamos a estrela que te anunciou, e nem ousamos pedir perdão. O que falta-nos em humildade, sobra-nos em orgulho. As trevas desceram como cortinas impedindo o sol em nossos corações. Vem rasgá-las! Vem, Deus da Luz! Faz de cada um de nós tua manjedoura, humilde e iluminada como a de Belém.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

ENCONTRANDO DEUS ENTRE AS PANELAS
 Ana Trajano


Santa Tereza D’Ávila dizia encontrar Deus entre as panelas. Isso sempre intrigou-me e colocou-me a pensar no que ela quis dizer. Nunca encontrei  uma resposta até o dia em que  vi-me obrigada a cuidar da minha casa. Avessa ao trabalho doméstico, entreguei o meu lar, desde que casei, aos cuidados de  uma empregada, ou secretária, como costumava chamá-la. Depois de 19 anos conosco ela decidiu ir embora, para ser enfermeira. E eu, sem nenhuma experiência, tive que aprender a lavar, passar, arrumar, cozinhar... Enfim, fui obrigada a fazer aquilo que devia ser feito não por obrigação, mas por amor:  ser verdadeiramente a dona da minha casa. 
         Acidentes aconteciam todos os dias, impreterivelmente: arranhões, queimaduras, cortes, quedas... Não podia negar, entretanto, que havia algo de gratificante em tudo aquilo: a sensação de estar, fisicamente, reconhecendo e tomando posse do meu lar, com tudo o que isso implica –  o espaço, os móveis, as minhas sujeiras, bagunças, dejetos. Desde o suor no lençol, aos restos alimentares da louça e a  lavagem do banheiro.  E reconhecer isso era reconhecer o pó e a sujeirinha que sou como ser de carne e osso.
         Aos poucos fui percebendo que  as atividades de casa exigiam de mim,  além do esforço físico, paciência e humildade- sobretudo essa última. Entendi, então, porque muitas mulheres detestam cuidar de suas residências e, finalmente, o que Santa Teresa quis dizer. O serviço doméstico exige  que nos humildemos e desçamos ao nível do chão para limpá-lo, e muitas de nós são vaidosas demais para isso. Tão vaidosas que, a cada dia, desafiamos mais e mais a gravidade, equilibrando-nos em saltos altíssimos que nos deixam centímetros além do chão.
         Pular dos scarpins  e descer até ele para limpá-lo é  visto como castigo. É dessa forma que o trabalho doméstico é apresentado. Basta que pensemos um pouquinho no final das vilãs arrogantes e malvadas das novelas brasileiras: sempre terminam limpando os assoalhos da vida.
 O que Santa Teresa quis dizer é que ninguém chega a Deus  se não através da humildade, de reconhecer-se como pó, e, reconhecendo-se, cuidar daquilo que somos, com muita dignidade. Limpar as panelas exige humildar-se e neste exercício encontramos Deus.  

Nossa vaidade nos leva a ter repugnância da sujeira que é nossa. Repugnados, nós a negamos e procuramos quem a limpe por nós. O problema maior é que muitos repugnam os que a limpam, recorrendo ao preconceito. Penso que está aí a origem da palavra “peniqueira”, usada por muitos para referir-se as empregadas domésticas. Peniqueira é aquela que lava o penico, isto é, as nossas sujeiras mais íntimas e fedidas. Os de egos inflados são bem espertos, pois só reduzindo-as a isto podem escravizá-las para que elas continuem a  lavar seus pinicos, isto é, limpar aquilo que, fazendo parte de si, não deixa de ser eles próprios.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

OS SINOS QUE DOBRARAM POR NÓS
Ana Trajano

A morte de uma amiga minha fez-me pensar nas minhas amizades virtuais. Sou alguém de coração sincero, que não gosta de exageros e detesta mentiras. E é com toda sinceridade que digo: nunca pensei que a morte de um amigo virtual, de alguém que não tive o prazer de conhecer pessoalmente, fosse  causar-me tanto impacto, trazer-me uma dor até então desconhecida. Às vezes temos belo discurso, lindas crenças, mas às vezes também nos perguntamos: será que, algum dia,  irei colocar isto em prática, ou sentir na prática como isto é?
Sempre acreditei na unicidade de tudo, de que tudo converge para uma coisa única, de que somos e fazemos parte de uma enorme teia, indivisível, misteriosa, divina. Se mexermos em um dos seus fios, é no todo que estamos mexendo. Dentro desse contexto, somos todos um, e se um se vai leva junto um pedacinho de nós. Nenhum homem é uma ilha, já afirmava Jhon Donne. Consciente dessa realidade, lembrava: “a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte da humanidade. Por isso não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”
Nunca havia sentido essa realidade em mim,  vivenciada no âmago do meu ser- e olhe que muitos dos meus já se foram, entre parentes e conhecidos, pessoas amadas, presentes. Não vou sentir-me culpada agora por não ter sentido  o mesmo com relação a eles. Tudo tem seu tempo de ser, de se fazer, de tornar-se aprendizado. E eu aprendi agora, graças a uma amizade virtual, feita em algo cujo nome também  é muito sugestivo: a rede, isto é, a Internet -essa teia que transforma o mundo em uma enorme aldeia global, e deixa o outro tão próximo que quase podemos sentir sua respiração.
Aprendi que estar presente transcende  a coisa física, basta que estejamos conscientes da existência do outro como esse fiozinho que nos liga à vida, ao mundo. E esta é a mais bela das presenças: a do outro em nós, como parte de nós, transformando-nos em um só.

Aprendi que não existe “amizade virtual”. Existem apenas  AMIZADES, por que não existem seres virtuais, nem sentimentos virtuais. O coração do mundo, do espírito do mundo que a tudo abrange e acolhe não é virtual. O virtual é tão somente reflexo do espelho que é esta Realidade Maior. Quando nos conscientizarmos de que só existe uma família – a família humana – as guerras deixarão de existir, e jamais perguntaremos por quem os sinos dobram, pois saberemos que é por nós também que eles estão dobrando, pelo nosso pedacinho que se foi com o outro.

quarta-feira, 19 de junho de 2013


                  O PREÇO DA INCOERÊNCIA
                Ana Trajano

Foto: Marcelo Camargo
Pátria amada, que venha a ti a paz que o teu povo tanto precisa. Que consigamos vê-la brotar nas mentes e corações de cada filho teu, mas, sobretudo, daqueles que tomam teu destino em suas mãos. Sim, que estes – os governantes – aprendam com a indignação, a revolta, mas, acima de tudo, com as sementes de esperança, espalhadas nas ruas, que a paz não coaduna com injustiças. A paz é filha da justiça, e onde a injustiça medra  ela se esconde.
         Pátria amada, que os poderosos percebam, de uma vez por todas, que a indignação dos teus filhos tem o mesmo tamanho da incoerência que domina suas decisões, o mesmo tamanho da política de privilégios que praticam, o mesmo tamanho do ego de suas corporações. Que percebam que as reivindicações dos teus filhos não são tão pequenas quanto os 20 centavos de aumento nas passagens – como pensam alguns -,   mas tem o preço e a  grandiosidade da passagem para um futuro melhor; tem a dimensão da coerência e da justiça, que pretendemos ver nas ações de nossos governantes.   
         Afinal, abristes os olhos e te perguntas agora, pátria amada: como pode um país que reduz em algumas centenas de reais o IPI para a compra de carros novos -  que vão entupir e poluir as cidades, submetê-las ao caos – não ter condições de reduzir, em alguns centavos apenas,  o preço do transporte público?
         É que a política de privilégios que pratica contempla apenas aqueles que podem – inclusive se endividar – para comprar um carro novo, e aos que não podem nem se endividar para possui-lo, resta apenas se conformar com a péssima qualidade do transporte público. Para este não existe investimento, pois não transporta privilegiados.
         Abristes os olhos e te perguntas também, pátria amada: como pode um país com um déficit habitacional de mais de 23 milhões de moradias gastar mais de 30 bilhões de reais na construção de estádios e infraestrurura para sediar uma copa, que vai servir apenas para encher os bolsos da Fifa? Oh, pátria minha, quão vergonhoso foi para nós ouvir o presidente dessa entidade, Josef Blatter, mandar os brasileiros se educarem! E, pior ainda, afirmar, que o futebol é mais importante que a insatisfação popular!
         Talvez ele tenha razão, pois um país educado prioriza e investe na educação. Um país educado não vai encher estádios e comprar um refrigerante pelos olhos da cara, para apenas gritar “gol”, enquanto numa de suas regiões o povo passa fome com a seca que a castiga, mais uma vez,  e que, vergonhosamente, muito pouco se faz para minimizar seus efeitos. Um país educado conhece sua realidade, e não se deixa levar pelos vendedores de ilusão.

         Abristes os olhos, pátria amada, e começas a perceber a poderosa máquina ideológica de poder e dominação na qual transformaram o futebol, colocado pela Fifa acima das criaturas, acima de todo sofrimento que lhes é infligido. 

domingo, 3 de março de 2013


A TRAIÇÃO, MÃE DE TODAS AS FRAQUEZAS

 Ana Trajano


O Beijo de Judas, de Giottto de Bondone (Wikipedia)
         Conta-se que Alvarenga Peixoto ao tomar conhecimento de que fora descoberto como inconfidente, pensou em trair seus companheiros para livrar sua pele. Ao chegar em casa falou de sua intenção para a esposa, Bárbara Heliodora, enfatizando que seria o único meio de salvar sua vida, e de sua família não perder todos os bens, ficando na miséria. A decisão da bela Bárbara foi surpreendente:
         -Trair seus companheiros? Nunca! Prefiro a viuvez, a orfandade para os meus filhos, a pobreza, do que te ver entrar para a história como um traidor, disse ela, ao que Alvarenga Peixoto teria respondido: “Tens razão, Bárbara! Nunca fui vil, nem covarde.”  Ele morreu na prisão e ela terminou pobre e demente.
Ambos preferiram tudo isso a sucumbir àquela que talvez seja a raiz de todas as fraquezas humanas: a traição. Todo erro, na verdade, é uma traição. É um trair-se a si mesmo. É trair em si mesmo a possibilidade de crescimento. É trair a vida. É trair a lei universal de ascensão,  a que todos nós estamos submetidos. Nós estamos aqui para aprender. Se o mundo é uma escola, a vida é a lição. Bárbara Heliodora entendeu isso.
Neste sentido, a confiança nos outros e em nós mesmos é didática; trair a confiança é optar pela ignorância, pela estagnação do processo individual de crescimento. Por entender isso, Judas preferiu a morte. Sabia que, a partir daquele dia, jamais ficaria em paz. O traidor não a conhece, pois sabe que, sobretudo, traiu a si mesmo. Confiança é uma fiança que se oferece a outro, e a nós, e a pior fiança traída é aquela que deixamos de pagar a nós mesmos.
Talvez nenhum outro erro decepcione tanto quanto a traição, quando parte daqueles a quem amamos e a quem confiamos a nossa vida, os nossos segredos e o nosso amor. Quando pensamos assim, entendemos  perfeitamente o espanto de Júlio César: “Até tu, Brutus?” E a tristeza de Jesus: “Judas, é com um beijo que trais teu mestre?”
A traição é tão perversa que, em vários momentos da história, ela está associada à morte, começando por Caim ao matar Abel. Ela é, ao que parece, o primeiro pecado do homem e começou quando Adão e Eva traíram a confiança do próprio Deus. A traição quando não mata, fere gravemente o coração de suas vítimas.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013


                               O CORPO DA MORTE
                                            Ana Trajano

Animais confinados para o abate
            “...E a carne de animais mortos em seu corpo transformar-se-á em seu próprio túmulo. Pois em verdade vos digo, quem mata, mata a si e quem come a carne de animais mortos come o corpo da morte. Pois no seu sangue cada gota do sangue deles se converte em peçonha; no seu hálito o hálito deles tresandará; na sua carne ferverá a carne deles; em seus ossos os ossos deles alvejarão; em seus intestinos os intestinos deles apodrecerão; em seus olhos os olhos deles se escamarão; em seus ouvidos os ouvidos deles se encherão de cera e a morte deles será a sua morte...”
            Palavras atribuídas ao Mestre de Nazaré, segundo o Evangelho Essênio da Paz, coleção de textos encontrados nos arquivos do Vaticano e organizados por Edmond Bordeaux Szekely.
 Nós, seres humanos, nos orgulhamos de que a consciência e a razão nos colocam no topo da árvore da vida, isto é, numa posição de superioridade com relação aos demais seres da criação. Nenhum outro ser, afinal, baseia sua vida na ciência; são, a nosso ver, pobres de saber. A própria palavra consciência, esse substantivo do qual tanto nós nos orgulhamos, lembra isso:  viver com ciência.
            Do ponto de vista, alimentar, entretanto, ainda não saímos da caverna, nos comportamos como o mais primitivo e irracional dos seres. Somos animais carnívoros, selvagens e a nossa selvageria nos coloca em posição inferior àqueles a quem classificamos de irracionais. Os animais matam para saciar a fome; nós matamos não apenas para saciar a fome, mas para saciar o nosso prazer de comer, e comemos até sem fome, mas apenas para alimentar o status de frequentar o restaurante da moda.
            Nenhum animal come por diversão, mas o sangue dos animais sacrificados rega as nossas festas, na carne que consumimos sem pensar, nem por um instante, na crueldade pela qual passou o animal que está à nossa mesa.  Crueldade? Bobagem, pensam muitos. Porque, afinal, pensar nisso se o que tem de ser levado a sério mesmo são os churrascos nos finais de semana que empanturram nosso conceito de felicidade?
            “Se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos se tornariam vegetarianos”, já li em algum lugar. Os matadouros não são transparentes, mas catástrofes como a seca, por exemplo, expõem nossa hipocrisia, nossa incoerência. Nós nos penalizamos com os animais mortos de fome, mas parecemos esquecer que esses mesmos animais que morrem de fome teriam uma morte não menos cruel para saciar a nossa.
            Segundo dados da Farm Animal Rights Movement, aproximadamente 10 bilhões de animais são mortos por ano só nos Estados Unidos e, em todo o mundo, são aproximadamente 58 bilhões. No Brasil, segundo estatísticas mais recentes, são 3 milhões sacrificados diariamente. Neste número não estão incluídos aqueles que são abatidos para alimentar o nosso ego e nos diferenciar em preço e produto nas bolsas, calçados, casacos e tantos outros acessórios. É muito sangue dos seus próprios filhos a encharcar o solo da Mãe Terra....
           
            

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013


 O TAMANHO DO DEMÔNIO
Ana Trajano



São Miguel Arcanjo, de Veiga Valle. Museu de Arte Sacra
da Igreja da Boa Morte, Cidade de Goiás
“...E eles viram, então, com pasmo e terror, que Satanás saía da boca do homem na forma de um verme abominável e se encaminhava diretamente para o leite que levantava fumaça. Jesus, então, tomou de duas pedras pontudas nas mãos e esmagou-lhe a cabeça, e arrancou do corpo do homem doente todo o corpo do monstro, quase tão comprido quanto o homem. Quando o verme execrável saiu da garganta do homem doente, este recuperou imediatamente o alento e, nesse instante, todas as suas dores cessaram e fitaram os olhos assustados no corpo de Satanás.
            “Vê a besta execrável que carregaste e alimentaste no teu corpo durante longos anos. Expulsei-a de ti e matei-a para que ela nunca mais possa atormentar-te. Dá graças a Deus pelos seus anjos te haverem libertado e não peques mais, a fim de que Satanás não retorne a ti outra vez. Que o teu corpo seja, daqui por diante, um templo dedicado ao teu Deus...”
            Trecho que retirei do “Evangelho Essênio da Paz para falar de um assunto para alguns polêmico, para outros nem tanto. Longe de ser discurso moral, ou bíblico-religioso, a verdade é que desde sua queda o homem tem dentro de si Deus e o Diabo, cabendo-lhe, conforme seu livre-arbítrio, qual dos  dois deve seguir.
            Sempre imaginamos Satanás – e a iconografia religiosa contribui o suficiente para isso- como algo exterior a nós, isto é, aquele monstro de chifres e rabo grande a nos tentar. Mas a realidade é que ele está dentro de nós, pois tudo aquilo que nos tenta, que tira a nossa paz, que nos desvirtua do bem está dentro de nós, na forma de sentimentos, pensamentos, ações. Satanás pode muito bem ser chamado, ou ter por apelido, “senhor ódio”, “senhor rancor”, “senhora injustiça”, “senhor preconceito”, “senhora inveja”, e tantos e tantos outros.
            Satanás tem o tamanho das nossas ações, do mal que fazemos, e do bem que deixamos de fazer. Ele pode ter a medida do nosso corpo, ou ser bem menor que ele, pode ser muito bem malhado, ou raquítico, dependendo apenas de como o alimentamos. Às vezes Satanás tem o tamanho de toda uma coletividade, ou dos números de tristes holocaustos.
            Certa vez um professor meu de Filosofia disse em sala de aula, que só ao visitar Auschuwitz teve a certeza  de que o homem traz dentro de si Deus e o diabo. Essa afirmação chocou a turma, mas não a mim, que sempre soube disso.
            Quando eu era criança, sentia muito medo de uma imagem que mamãe tinha em casa, com São Miguel Arcanjo dominando o demônio, pisando sobre ele. Em uma mão São Miguel trazia uma espada e na outra uma balança. Aquilo sempre me intrigou. A balança, diziam-me, representa a justiça, e eu me perguntava: que justiça iria São Miguel medir no diabo se não existe nenhuma justiça no demônio?
             Hoje sei que o Satanás que São Miguel pisa é  aquele que temos em nós, e a balança da justiça mede o seu peso, ou tamanho, isto é, o que temos  de mau e de bom, o que temos de Deus e do diabo. Rezo todos os dias para que São Miguel domine o que há em mim e Jesus, assim como fez com aquele que habitava  o corpo do homem doente, expulse-o e esmague-lhe a cabeça.