segunda-feira, 10 de setembro de 2018


DE QUAL ÁRVORE VOCÊ QUER O FRUTO?

    Ana Trajano

 
    O Gênesis é, com efeito, um dos livros mais instigantes da Bíblia pelo fascínio que desperta em cada um de nós seus relatos sobre a criação do homem e do cosmos.  Que a linguagem bíblica  é simbólica, possibilitando inúmeras interpretações, todos nós sabemos. Quem entre nós cristãos ainda não se indagou sobre o significado de símbolos como a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal, entre outros?

    O bom da linguagem figurada, utilizada pelos autores bíblicos do antigo testamento, e posteriormente também  por Jesus em suas parábolas, é que ela permite a cada um buscar sua interpretação, estimulando a reflexão, a busca das verdades de Deus, que outra coisa não é senão o conhecimento de si mesmo. O Gênesis é perfeito nisso; mesmo que o leitor mais desatento possa enxergar contradição em alguns fatos ali narrados.

    Refiro-me aos dois momentos nos quais o Gênesis refere-se à criação do homem. Nada, porém, há de contraditório neles. Senão, vejamos. "Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher." (Gên 1-27) Esse é o primeiro momento. No segundo, e que parece contradizer a esse, é afirmado: "No tempo em que o Senhor Deus fez a terra e os céus, não existia ainda sobre a terra nenhum arbusto nos campos, e nenhuma erva havia ainda brotado nos campos, porque o Senhor Deus não tinha feito chover sobre a terra, nem havia homem que a cultivasse. O Senhor Deus  formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente." (Gên 2-7) Isso só já bastaria para entender tudo e acabar com a dúvida: como pode um ser de barro ter sido feito à imagem e semelhança de Deus?

    Deus certamente não é de barro, e a dúvida sobre o versículo não é tão difícil assim de ser resolvida. Deus, em princípio, fez o homem à sua imagem. Ora, Deus é puro espírito e fez o homem espírito também, igual a ele. Ao se defrontar com a necessidade de alguém para cuidar da terra, Ele decide revestir o homem, até então um ser puramente espiritual, de um corpo físico, e o fez com a mesma substância da terra, o barro.

    O homem, dessa forma, passou a ter duas naturezas: a espiritual, ou divina, e a física, ou material. Essa realidade, a meu ver, é representada pelas duas árvores: a da Vida, e a do conhecimento do bem e do mal, que o Senhor Deus planta no centro do jardim, isto é, dentro do homem. A árvore da vida representa o espírito eterno e imperecível, e a segunda a matéria corruptível e transitória. O homem jamais deveria permitir que a segunda natureza (a física) prevalecesse sobre a primeira (a espiritual), pois do contrário ele morreria. Isso só seria possível alimentando-se dos frutos do espírito, mantendo-se no seu estado de pureza espiritual, onde ele vivia até então. 

    Matéria, ou o mundo, significa morte, pois toda ela é perecível. Ao deixar-se absorver por ela, Adão atraiu para si a morte. Não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal representa não se deixar absorver pelo mundo a tal ponto de se identificar apenas com seu corpo físico e esquecer sua natureza primordial: o espírito.

    A serpente representa o ser rastejante, tão pequeno que chega ao nível do chão, mas astuto, malvado e venenoso em que se transforma o homem quando atraído completamente por sua segunda natureza, e esquece sua origem divina, o ser espiritual que é. A queda de Adão é, pois, a nossa queda diária cada vez que escolhemos comer o fruto da árvore errada.


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017



QUANDO O BEM DECLINA

            Ana Trajano

 

            Só mais alguns dias e 2017 já não será mais, passará a ser apenas um ato do frágil teatro humano no palco do tempo. Irá embora com uma certeza: nenhum outro ano  foi  tão próspero em datas para um suposto fim do mundo  quanto ele. Várias foram as previsões, mas o nosso planetinha, driblando todas as teorias da conspiração, continua de pé brincando na galáxia. O dia e a hora, como nos avisou o Mestre, só quem conhece é o Pai, aquele em quem tudo se move e tudo é, e, por isso, tudo sabe. Para que suas crianças - nós - não se desesperem, Ele prefere manter  segredo.


            O fim do ano, porém, não acabará com a teoria do fim do mundo. Ela permanecerá e, certamente, outras previsões e novas datas virão como algo esperado e, até certo ponto, ansiado por muitos, nestes tempos tão difíceis nos quais os acontecimentos diários nos deixam tão perplexos.


            Mas por que será que o homem comporta-se como se desejasse o fim do mundo? O mundo, ao que parece, é confundido com a realidade. O homem, desse modo, não deseja o fim do seu planeta -apesar de tudo fazer para destruí-lo  -mas o fim da realidade que criou, com coisas boas e outras extremamente desagradáveis.


            Entre as desagradáveis está sua decadência moral, ética, política, religiosa, etc. Esta, com efeito, chegou no nível da insuportabilidade. Estamos como que perdidos no meio do lamaçal. Perdidos, resgatamos da memória o que nos foi apresentado como solução para a nossa ruína histórica e cíclica: o fim do mundo com o dilúvio. Deus não acabou com a Terra, mas com a humanidade perversa, corrompida. O mundo, então, não é a Terra, mas o que está dentro de nós: a nossa visão limitada, simplista, egoista, presa à cadeia espaço/ tempo/ matéria, sobretudo a matéria.


            Quando falamos no fim do mundo, estamos de fato reconhecendo as nossas limitações, os nossos erros, a nossa degeneração - coisas contrárias àquele que nos criou e que é pura perfeição. Deus nos criou para ser perfeitos e, dentro dele, não suporta a imperfeição. No fundo, todos nós sabemos disso. Quando desejamos o fim do mundo, estamos, na realidade, reconhecendo o que há de imperfeito e corrupto em nós e desejando seu fim.


            No Bhagavad Gita, Krishna diz a Arjuna que, sempre que o bem declina, Deus desce à Terra para restaurá-lo. Não é por outra coisa senão por isso que estamos esperando a segunda vinda de Jesus.


 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017



UMA SELFIE COM DEUS
                Ana Trajano

                Ontem, enquanto preparava-me para fazer uma selfie, te ouvir cochichar ao meu ouvido: "veja além da lente, veja além da tela de cristal." Aquietei-me para escutar, pois sabia que ias me dizer mais. "A tua face - assim como  o teu corpo - é apenas uma porta espelhada que só reflete a si mesma. Enxergue além da porta! Abra-a!

                "Você, certamente, se assustará com medo do escuro lá dentro, mas a luz nunca vencerá as trevas enquanto portas estiverem fechadas. Já imaginou uma porta na frente do sol?Alguém teria que removê-la se quisesse a luz. Você quer a luz! Busca-a com tanta sede...eu sei.

                "Eu sou a luz e estou com você. Para isso vim ao mundo, para ser a luz do mundo, mas vocês ergueram-me portões, inúmeros portões. O pior deles aquele que os esconde de si próprios. Esse, para muitos, é quase irremovível. Vocês se olham no espelho, nos celulares, fazem suas selfies, mas veem apenas o portão. São narcisos numa poça d'água. Nunca entenderam que o que veem não é real. É apenas uma imagem projetada pela sombra da luz que vocês esconderam.

                "Venham a mim! Busquem-me no presépio, na cruz, ou no sepulcro de onde eu removi a pedra que os separava da luz. Removam-na de dentro de vocês. Não prefiram a escuridão da morte. Iluminem-se como iluminam suas casas no Natal. Descubram o castelo iluminado que são. Descubram a linda face de luz que vocês têm e chamem-me para fazer uma selfie."

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017



 OS MULTIS QUE SE DÃO
Ana Trajano      

                Muitas pessoas sofrem com algum tipo de fobia: inseto, altura, elevador... A minha é de multidão. As raríssimas vezes que já me vi no meio de uma senti-me apenas parte invisível da perna de um gigante. Eis o que me assusta: eu não sinto minha face numa multidão, não vejo a cara de ninguém. Sou apenas minúscula parte de um número. E nunca fui boa em matemática.

                Isto é fato: a multidão não tem face, inexiste-lhe uma personalidade permanente. Ela é multi - o multi que se dá, que se oferece a algum propósito, também ele impermanente. Ela é, enfim, os multis que se dão. Apenas os números identificam a multidão: dezenas de milhares, centenas de milhares... Isto porque apenas as cifras mostram o sucesso ou o fracasso do seu objetivo.

                Para a multidão o que vale é o peso: quanto mais rica em algarismos melhor. A multidão magra, coitadinha, é motivo de pena e tristeza para uns e de festejo para outros. Já a grande, forte, robusta é sempre motivo de comemoração: a certeza de que o plano de manobra funcionou.

                Toda multidão é carente de alguma coisa. Independente do motivo da sua carência, ela é, ao mesmo tempo, extremamente frágil e terrivelmente poderosa. Qualquer que seja ela, porém, traz essas duas características: fragilidade e poder.

                Se jogarmos um olhar mais crítico sobre uma multidão, veremos que ela é um enorme amontoado de pessoas com alguma carência em comum: espiritual, ou de diversão e entretenimento, ou de busca pela satisfação política, econômica e social. Isto é, são amontoados lutando, ou  buscando  satisfação num desses campos da vida humana.
                Toda forma  de carência deixa o indivíduo extremamente frágil, vulnerável. Nisto está o duplo poder da multidão: ela eleva o indivíduo fragilizado ao poder do coletivo, do único ao multi. Dessa forma, o indivíduo ganha em força, mas apenas na aparência, já que a multidão também é extremamente frágil à manipulação. O rebanho, dependendo do pastor, pode ir ao céu ou ao inferno.

domingo, 3 de dezembro de 2017

O CAMINHO DE VOLTA
Ana Trajano

      Com o objetivo de tornar seus ensinamentos mais atraentes, e dessa forma assegurar seu aprendizado, Jesus falava por parábolas, colocando cada ouvinte para refletir sobre o que ele dizia, para buscar dentro de si a verdade que estava por trás de cada estória. Isto é, a pedagogia do mestre era a de ensinar a partir da reflexão, do mergulho dentro de nós.
     No final de sua vida, porém, ele resumiu todos os seus ensinamentos em uma única frase: "amai-vos uns aos outros." O homem que havia passado os últimos três anos da sua curta existência terrena, falando sobre o reino de Deus, entregou-nos a chave para entra nele: o amor. 
      O amor, disse Jesus, é a lei, o mandamento. Os homens, entretanto, acostumados a códigos de regras e conduta, estranharam. Mas   o mestre, com a inteligência que lhe era peculiar, digna do Deus que é, quis simplesmente fazer-nos enxergar que o amor para com os outros abarca todos os mandamentos, todas as leis.
       Com efeito, os 10 mandamentos não seriam necessários se na época de Moisés - e antes disso, no início das sociedades humanas - o amor prevalecesse entre os homens, norteando suas relações. Quem ama não mata, não rouba, não julga, não comete adultério, não conhece o preconceito, não pratica a corrupção, porque quem ama coloca-se no lugar do outro, vê   nele a si mesmo.
         As leis, as regras, apenas legitimam os nossos erros, os nossos pecados. Nãos os tratam, não os combatem, não conduzem à sua raiz. E na raiz de  todos os erros está a ausência do amor por nós mesmos e pelos outros.
          O amor é Deus; Deus é amor. Fomos feitos à imagem e semelhança d'Ele, logo nossa essência é o amor.  Quando  fugimos  dessa  verdade, intrusos como o orgulho, o ódio e a  inveja, entre tantos outros, batem à nossa porta.         
       Para amar o outro eu preciso antes estar com o coração transbordante de amor por mim. Só amando-nos somos capazes de reconhecer Deus em nós e, a partir disso, enxergá-Lo no outro. Só o amor transformará o mundo e nos salvará de nós mesmos. O caminho de volta, portanto, passa pelo resgate da nossa essência,  da face da nossa divindade.  








quarta-feira, 29 de março de 2017



                EXORCISTAS DE NÓS MESMOS
                Ana Trajano

                As tradições religiosas, em sua maioria, falam-nos de anjos e demônios, sendo estes últimos também anjos, só que caídos, rebelados, aqueles que se voltaram contra o Criador. Vivem estes dois exércitos em conflito  permanente, ininterrupto - a eterna luta do bem contra o mal, desde o começo da tal rebelião.
                Enganam-se, porém, os que pensam que anjos e demônios só existem nos mundos invisíveis dos planos espirituais. Eles existem também em suas formas sutis dentro de cada um de nós. Os anjos, ou soldados da luz, são as nossas virtudes, nossos bons pensamentos, o bem que desejamos e fazemos. São, enfim, cada chance que damos à paz, ao amor e a justiça  - essa trindade que, posta em prática, é fonte de todo bem.
                Os demônios, ao contrário, são as nossas más características, o bem que deixamos de fazer, a chance que deixamos de dar à paz, ao amor e a justiça.  Essas duas forças duelam-se, digladiam-se, vivem em constante batalha pelo território sagrado do coração. Cada guerra que existe no mundo, começa dentro de nós, tem início quando falhamos como exorcistas de nós mesmos.
                Céu e inferno têm início dentro de nós, existem em suas formas sutis no nosso interior e, dependendo das nossas escolhas, com base no livre-arbítrio, podem, sim, ser uma de nossas moradas nos planos espirituais.
                Lembro-me que uma das visões que Santa Teresa D'Ávila teve do inferno foi de um fogo que queima a alma por dentro, conforme ela relata no seu Livro da Vida. Existem demônios piores do que o ódio, o orgulho, a inveja, a arrogância e o preconceito?  São estes, entre tantos outros, que destroem o nosso território sagrado: o coração, alma humana. Existe fogo que arda com mais intensidade do que o de uma consciência que não está em paz?
                Várias são as passagens nos evangelhos que referem-se  ao mestre de Nazaré expulsando demônios. Sabemos que, todos aqueles que se deixavam e eram tocados por Jesus, mudavam suas vidas, abandonavam suas más características, voltavam-se para o bem. Deixemos, então, nos tocar por Ele e, assim como o bom ladrão, ainda hoje estaremos com ele no paraíso -  aquele paraíso que começa em nós.